
Semana passada recebemos a primeira edição do jornal impresso Folha de Cajamar, e meu filho pegou nas mãos com uma cara esquisita, olhando como quem não sabia o que fazer com aquilo. Mãe, o que é isso? perguntou. Era um jornal, de papel, e ele não sabia.
Fiquei alguns segundos olhando para ele e depois para aquele monte de notícias impressas que, durante boa parte da minha vida, fez parte da casa, da rua, da mesa do café, da espera no consultório, do banco da praça, dos trabalhos de escola. Expliquei que as pessoas compravam aquilo para saber o que tinha acontecido no mundo, e ele olhou para as páginas e quis saber por que a gente não via tudo no celular. Enquanto eu explicava, ele levou o jornal ao nariz e cheirou. E aquele cheiro me jogou direto para os domingos de manhã lá de casa, quando eu esperava ansiosa meu pai terminar de ler para finalmente poder pegar o jornal.
Sinto que a tecnologia fez isso com algumas coisas: não exatamente acabou com elas, mas tirou delas o cheiro. Hoje temos tudo rápido numa tela. As fotografias não precisam mais de álbum e nem são mais vistas juntas, em roda, como antes. As cartas viraram mensagens, a agenda virou aplicativo, os relógios moram dentro do celular. A música não precisa mais de fita, e ninguém precisa esperar uma acabar para ouvir a próxima. Antigamente, quando a fita enrolava, a gente rebobinava, e às vezes usava até uma caneta para fazer a fita voltar, porque a tecnologia também tinha seus truques domésticos, seus pequenos rituais. Hoje é só apertar um botão e pronto: tudo volta, tudo avança, tudo pula. Talvez tenhamos ganhado tempo, mas perdemos algumas formas de esperar.
Eu me lembro do barulho do videocassete, da fita entrando, do pequeno suspense até a imagem aparecer. Lembro do telefone preso na parede, da televisão com poucos canais, do rádio, do jornal dobrado debaixo do braço, do cheiro de livro novo, do cheiro de jornal velho, do som de uma página sendo virada. Coisas tão pequenas que pareciam eternas, justamente porque ninguém imaginava que um dia se tornariam lembrança.
Meu filho nasceu num mundo em que fotografar não precisa de filme, em que ninguém faz mais coleção de música ou de cantores na estante, e notícia não precisa esperar a manhã seguinte. Nasceu num tempo em que quase não se precisa esperar por nada. E não estou dizendo que antes era melhor, porque não era: a tecnologia nos deu coisas maravilhosas, e ele pode descobrir um assunto em segundos, ouvir uma música de outro país, conversar com alguém que está longe, encontrar livros, imagens, tudo com um toque. Mas eu, particularmente, tenho saudade de uma parte da vida que não precisava de velocidade. O jornal tinha uma manhã específica guardada só para ele. O filme tinha um tempo para rebobinar quando a gente queria ver de novo. A fotografia tinha aquele instante em que a gente esperava, sem saber, para descobrir como tinha ficado, e às vezes esse instante virava semanas.
Ouvir “Que tempo bom, que não volta nunca mais” na 105 FM.
O que eu senti vendo meu filho segurar aquele jornal não foi saudade do passado. Foi saudade do tempo e da presença que existia dentro das coisas.
E se você leu este texto até o final, obrigada por estar aqui, dividindo seu tempo comigo e sentindo o cheiro das lembranças.
Daiane Nascinento, tem 43 anos e nasceu em Cajamar. É Pedagoga e estudante de Letras pela UNIVESP. Apaixonada por literatura escreve desde os oito anos. Possui 25 prêmios sendo 2 de alcance nacional

