A noite chegou cheia de barulhos.
Nasrin estava deitada no colchão de flores azuis, embaixo da mesa, agora seu castelo, com a boneca de pano no colo.
De repente, um estrondo sacudiu o céu.
— Mamãe! ela chamou, apertando a boneca com as duas mãos.
A mãe entrou debaixo da mesa. Sentou-se na beira do colchão e passou a mão no cabelo escuro da menina.
— Estou aqui, pequena.
— Tem barulho no céu, e hoje está muito alto. Disse a garota tampando os ouvidos com as mãos, tenho medo.
— É trovão de ferro de novo?
A mãe sorriu.
— Dessa vez não, doce Nasrin. São fogos de comemoração.
— Comemoração de quê?
— De que a noite passou e a manhã vem chegando. Todo novo dia é de comemoração.
Nasrin olhou para a fresta da janela. Uma luz riscou o escuro lá fora. Ela fechou os olhos depressa.
— Mamãe, eu tenho medo das botas pretas.
A mãe ficou quieta por um momento. Olhou para as próprias mãos.
— Elas servem também para plantar rosas, sabia?
— Rosas como as nossas?
— Como as nossas.
No quintal da casa havia um canteiro pequeno. Na primavera, mãe e filha tinham plantado rosas vermelhas ali. Todas as manhãs, Nasrin regava com um regador amarelo e contava as flores em voz alta.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Quatro rosas.
— Amanhã vou regar as rosas, disse Nasrin, com os olhos pesados.
— Vamos regar juntas. Respondeu a mãe.
O céu tremeu outra vez, mais distante.
A mãe começou a cantarolar baixinho. Uma canção sem palavras, feita só de voz, quase um lamento. Um som que Nasrin conhecia desde antes de nascer.
— Mamãe?
— Sim?
— Quando as botas pararem de andar… podemos plantar rosas em todas elas?
A mãe puxou o cobertor até o queixo da menina e ficou olhando para ela por um instante.
— Vai ter tantas rosas que não vão caber no quintal, disse.
— Vão crescer pela rua inteira.
Nasrin sorriu com os olhos fechados.
A boneca de pano apertada entre os braços.
O cantarolar continuou baixo.
Lá fora, no escuro, o céu foi ficando quieto aos poucos.
Adormeceu enquanto a mãe cantava.
E sonhou com a rua inteira cheia de botas pretas.De dentro delas nasciam rosas brancas.

